O milagre de Santa Cecília

Este pequeno poema cantado pelo povo passa-se no velho ducado medieval alemão da Suábia, que fica entre a Baviera, a Francônia e o Reno.

Mesmo aos seres divinos – donos da música das esferas e das melodias celestes – comove a canção dos músicos humildes, que põem todo o seu coração nas notas, oferecendo-as como se oferecessem sua prece melhor.

Santa Cecília de Guido Reni, 1606.
Santa Cecília de Guido Reni, 1606.

Outrora, os habitantes de Gmund, na Suábia (Baviera, Alemanha), construíram magnífica igreja sob a invocação de Santa Cecília, a padroeira dos músicos.

Lírios de prata brilhavam como raios de luar em torno da santa, e rosas de ouro, como o resplendor da aurora, enfeitavam-lhe o altar.

Trajava a santa vestido de prata e calçava riquíssimos sapatos de ouro, porque naquele tempo, não somente na Alemanha, mas no mundo inteiro, os ourives de Gmund eram célebres pelo seu trabalho.

Grande número de peregrinos dirigia-se à capela de santa Cecília, onde constantemente ressoavam sinos melodiosos.

Um dia chegou à cidade um pobre violinista, de faces pálidas e cavadas, e muito magro. Caminhara durante longo tempo, estava fatigado e não tinha nem mais um pedaço de pão, nem a mais pequenina moeda de cobre. Entrou na igreja, e tocou seu divino instrumento.

A santa comoveu-se com aquela melodia e com aquela miséria. Fez um movimento, inclinou-se, descalçou um de seus sapatinhos de ouro e lançou-o nas mãos do pobre menestrel.

Louco de alegria, o mocinho saiu correndo, cantando, e deixou a igreja, dirigindo-se à casa de um ourives, a fim de vender o precioso presente.

O ourives, mal viu o sapato, reconheceu-o e fez prender o jovem músico, tratando-o como ladrão. Conduziram-no ao juiz, foi julgado e condenado à morte.

Ressoou o sino, funebremente, tangendo pelo que ia morrer. Numeroso cortejo pôs-se em marcha. Ouvia-se o canto solene dos monges, e, dominando-o, os sons do violino, porque o inocente músico pedira, como graça especial, que lhe deixassem conservar o instrumento e tocá-lo até seu derradeiro instante.

Quando passavam diante da igreja de Santa Cecília, ele rogou:
— Deixai-me entrar aqui uma última vez, e executar minha última harmonia!
Como a vontade dos que vão morrer é sagrada, permitiram-lho. Entrou, prostrou-se diante do altar, e com mão trêmula fez vibrar o arco.

A santa, enternecida diante daquela dor, inclinou-se, descalçou o outro sapatinho de ouro e lançou-o às mãos do pobre músico.

Numerosa multidão assistiu àquele milagre, e todos viram como a santa protegia os músicos do povo.

O artista ambulante foi cercado, coroado de flores e carregado em triunfo até o palácio da justiça, onde os magistrados lhe ofereceram lauto banquete.

(do livro Maravilhas do Conto Popular, editora Cultrix)

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